Crise climática abala planos de futuro de jovens em Campinas e afeta até o desejo de ter filhos

image

Compartilhe!

Shares

Pesquisa inédita JUCAMP revela que calor extremo nas escolas públicas e falta de estrutura nos bairros geram angústia geracional e alteram as expectativas de futuro de mais de 58% dos entrevistados

As ondas de calor, a falta de água e as enchentes deixaram de ser debates abstratos e passaram a ditar a rotina de quem estuda, trabalha e vive nas periferias de Campinas. É o que revela o primeiro diagnóstico do projeto JUCAMP (Juventudes, Raça e Mudanças Climáticas em Campinas), que traz um dado importante: mais de 58% dos jovens campineiros afirmam que a crise do clima influencia suas expectativas de futuro, e 34% passaram a questionar se querem ter filhos por conta da crise climática. O lançamento aconteceu no último sábado, 25, em um evento na Fêmea Fábrica, em Campinas.

O levantamento, realizado pelas organizações Em Movimento, Minha Campinas e assessoria técnica da Rede Conhecimento Social (ReCoS) entre fevereiro e março deste ano, com investimento da Fundação FEAC, mostra que a angústia com o clima corre em paralelo com a falta de estrutura básica nos bairros. Embora o calor extremo seja a maior queixa física da população de 15 a 29 anos, apenas 2,7% das salas de aula da rede pública estadual contam com climatização.

Os relatos coletados no estudo mostram que as juventudes entendem os problemas socioambientais que as cercam, como a crise hídrica, as ilhas de calor e as enchentes recorrentes. No entanto, a pesquisa detectou que ainda é difícil para eles perceberem que a sociedade civil pode e deve se manifestar de forma organizada para cobrar melhorias. Eles sentem o calor exaustivo dentro da sala de aula e lidam com racionamentos de água frequentes – e encontram barreiras para enxergar canais de participação política como caminhos para exigir seus direitos.

De acordo com Iasmim Vieira, coordenadora de projetos do Em Movimento, o estudo evidencia que a falta de infraestrutura transforma o clima em um obstáculo direto para o desenvolvimento desses jovens. “A ausência de climatização nas escolas e as constantes quedas de serviços básicos como energia e internet, comuns em dias de ventania, por exemplo, comprometem o rendimento de quem tenta estudar ou trabalhar nas periferias”, explica. Para a coordenadora, o diagnóstico ajuda a tirar o debate climático da teoria e o localiza nas necessidades mais urgentes do cotidiano urbano.

O CEP da crise climática em Campinas

Os impactos da crise climática em Campinas oscilam conforme o bairro de moradia. Para quem depende do transporte coletivo, por exemplo, a chuva intensa não é apenas um evento natural, mas um fator que inviabiliza a mobilidade urbana, com atrasos frequentes que resultam em faltas na escola ou no trabalho. A coordenação da Minha Campinas, organização campineira que co-realizou o estudo, entende que falar sobre o clima na cidade exige responder de forma honesta à pergunta sobre qual é o CEP da crise climática. 

A cogestora, Viviane Junta, da Minha Campinas , avalia que quem vive nas periferias campineiras sente a diferença de caminhar por ruas sem arborização ou enfrentar enchentes que travam os ônibus. “O objetivo de apoiar uma pesquisa desse porte é garantir que esses dados sirvam de ferramenta para que os próprios moradores e os coletivos de bairro consigam cobrar da prefeitura soluções integradas de saneamento, arborização e transporte onde a vulnerabilidade é histórica”.

Tatiane Zamai, gerente de Desenvolvimento Social da FEAC, diz que o levantamento consolida essa estratégia ampla de fortalecimento dos territórios e políticas públicas. “A produção de conhecimento ganha sentido quando fortalece a capacidade dos territórios de interpretar seus desafios e construir respostas coletivas. A JUCAMP demonstra que evidências, participação social e fortalecimento das organizações não são agendas distintas, mas dimensões de uma mesma estratégia de desenvolvimento social e territorial. Transformar a experiência das juventudes em conhecimento permite que as evidências produzidas qualifiquem decisões, fortaleçam a atuação da sociedade civil e contribuam para políticas públicas mais conectadas às realidades locais”, destaca. 

Contrastes regionais: da saúde mental ao receio de torneiras secas

A pesquisa revela que a percepção sobre as transformações no clima varia sensivelmente entre as diferentes regiões de Campinas. Na região Norte (que abrange territórios como Barão Geraldo, Amarais e Nova Aparecida) , por exemplo, os jovens registram os maiores índices de impacto na saúde mental, no rendimento dos estudos e nas expectativas de futuro, sendo também o território onde os moradores afirmam ter alterado mais seus hábitos diários por conta do clima. Em contrapartida, as juventudes da região Central relatam mudar bem menos suas rotinas cotidianas, mas apresentam o maior nível de preocupação em relação à futura escassez de água no município. Além disso, os moradores do Centro são os que mais observam o aumento de doenças respiratórias e viroses associadas às variações do clima.

Enchentes na Noroeste e o peso do cuidado nas periferias

O impacto das alterações climáticas na infraestrutura urbana também desenha realidades muito específicas nos bairros campineiros. Os moradores da região Noroeste,  por exemplo, são os que mais apontam a interdição de vias e avenidas devido a enchentes e alagamentos frequentes. O levantamento também expõe como esses episódios pesam de forma desigual na rotina doméstica: nas regiões Noroeste e Norte, os jovens são os que mais concordam que os desastres ambientais provocados pelo clima redobram o trabalho de cuidado familiar, uma função que sobrecarrega majoritariamente as mulheres do território.

Para Lina Pimentel, diretora socioeducativa da Fundação FEAC, as questões ambientais devem ser olhadas juntamente com as questões sociais. “Esse levantamento é essencial para que, a partir dos dados e das informações de quem vive a cidade, possamos pensar e propor ações para que as regiões mais vulneráveis não sejam as mais afetadas pelos eventos climáticos, que vêm se intensificando e adicionam essa nova camada de vulnerabilidade para os indivíduos. Nós, da Fundação FEAC, entendemos que esse conhecimento pode contribuir significativamente para a construção de estratégias mais eficientes”, destaca. 

A pesquisa em números em Campinas

     ● 58% dos jovens campineiros afirmam que a crise climática influencia suas expectativas de futuro, e 34% afirmam que as condições climáticas os fazem repensar o desejo de ter filhos

      ● 73% dos jovens enfrentam dificuldades para se locomover de ônibus em dias de chuva forte (34% de forma recorrente e 39% de forma ocasional).  

  • 70% relatam quedas de internet por causa do clima (26% sempre e 44% às vezes)
  • 75% sofrem com falta de energia elétrica em ventanias (26% sempre e 49% às vezes).
  • 69% percebem impactos no desempenho escolar ou profissional (48% concordam totalmente e 21% em partes)
  • 30% sempre faltam ou se atrasam para compromissos e 39% às vezes devido a tempestades ou calor extremo.
  • Para 68% dos entrevistados pessoas pobres e pessoas ricas sofrem os efeitos das mudanças climáticas de maneiras diferentes

Sobre a Fundação FEAC

A Fundação FEAC é uma organização independente, sediada em Campinas (SP), que atua na redução das desigualdades e na promoção do desenvolvimento social. Após seis décadas de atuação sólida na Região Metropolitana de Campinas (RMC), em 2025 realizou a sua transição definitiva de mantenedora para investidora social estratégica e articuladora sistêmica do ecossistema social, apoiando Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e fortalecendo os debates e ações para a implantação e melhorias de políticas públicas. Sua atuação é focada em três grandes pilares: Acesso a Direitos Sociais; Inclusão Produtiva; e Convivência Familiar e Comunitária Saudável. Gerida por um Conselho Curador e uma Diretoria Executiva, a instituição conta com uma equipe técnica especializada em suas áreas programáticas para orientar seus investimentos. Em 2025, mobilizou mais de R$ 34 milhões em recursos próprios para o desenvolvimento e apoio a projetos no município, sem o uso de verbas públicas. Saiba mais em: https://feac.org.br/

Compartilhe!

Shares

What do you feel about this?