Jovens de Vinhedo representam a cidade em Santos com teatro performático
Com elenco formado majoritariamente por alunos da rede pública, grupo financia viagem ao litoral por meio de rifa social de R$ 2,00 para custear transporte e alimentação
O que acontece com os anseios da infância no exato momento em que a realidade exige a urgência do crescer? É no hiato entre o desejo íntimo e as pressões sociais que se equilibra A Parte que nos toca, espetáculo em processo de criação da Cia Jovem — iniciativa social do Instituto Unindo Sonhos em parceria pedagógica com o Coletivo NEx.Arte, de Vinhedo (SP). Uma amostra pioneira deste trabalho, moldada no formato de cena curta com 15 minutos de duração, fará sua estreia no palco do Teatro Guarany, em Santos, no dia 12 de junho, dentro da programação do FESCETE (Festival de Cenas Teatrais).
Sob a direção de Renan Mozzer, a montagem adentra o terreno do teatro performático-dramático ao abdicar de uma estrutura linear rígida. O espetáculo completo, projetado para ter cerca de 50 minutos, é composto por um mosaico de 13 “cenas-sonhos” independentes, costuradas a partir de um processo de análise ativa e criação coletiva baseado nas vivências reais do elenco. O grupo, por sua vez, carrega o peso estatístico e poético da juventude periférica: dos 13 atores que viajam ao litoral paulista, com média de 14 anos de idade, 11 são estudantes da rede pública de ensino.
No entanto, o verdadeiro manifesto da peça reside na vulnerabilidade do imprevisível. Tanto no espetáculo integral quanto na pílula que será apresentada em Santos, quem dita o destino da apresentação é a plateia.
A mecânica do acaso
O desenho cênico concebido por Lara Crivellari utiliza o minimalismo cru de caixas de papelão e de sapatos — recipientes que operam como metáforas visuais para memórias e calçados, mas, sobretudo, para os “sonhos encaixotados”. Durante a dinâmica da peça, cada integrante deposita em uma urna um envelope contendo o título de sua cena autoral. A caixa é direcionada ao público, que sorteia as histórias a serem executadas no “aqui e agora”.
Para a mostra no FESCETE, os riscos são ainda mais agudos. Das 13 composições possíveis desenvolvidas pelos adolescentes, apenas duas serão sorteadas para preencher o tempo regulamentar da sessão curta. Os jovens artistas só descobrem o que vão encenar quando o papel é aberto no palco.
“Meu sonho sempre foi estar em paz, sem palavras entaladas na garganta”, relata a atriz Rafaela Cassoli Bissolati, integrante do grupo. “A peça me ajudou a tirar essas palavras e transformar em arte. A mini eu, que não sabia se era capaz de falar tudo o que guardava, não acreditaria que transformamos isso em cenas-sonho que vão para outras cidades. Sonhar junto é realidade.”
A dramaturgia, organizada por Bruno Martins (Bruma), investiga temas que fracionam a mente do jovem contemporâneo: a fricção entre as expectativas familiares e as vocações individuais, a idealização profissional, os devaneios lúdicos e, em uma camada mais densa, o vazio da total ausência de perspectivas. Os figurinos, customizados pelos próprios adolescentes em sala de ensaio sob a orientação da figurinista e costureira Taynara Anjos, funcionam como telas onde os atores estamparam graficamente suas próprias angústias e identidades.
Logística e resistência cultural
A viagem até Santos carrega contornos de odisseia para uma companhia independente de formação. Sem uma linha de fomento direto para o deslocamento, o grupo financia a jornada por meio de uma rifa social — com bilhetes comercializados a R$ 2,00 que sorteiam de kits de doces a itens temáticos de literatura infanto-juvenil. O engajamento visa garantir transporte, alimentação e o suporte técnico elementar para os adolescentes.
O diretor Renan Mozzer encara o FESCETE como um divisor de águas pedagógico e institucional. “Tenho um orgulho imenso e uma responsabilidade do mesmo tamanho em levar esses adolescentes para Santos. Esse projeto existe no meu coração há algum tempo e agora existe no mundo”, pontua. O ecossistema criativo ganha musculatura com o Coletivo NEx.Arte, chancelado como Ponto de Cultura pelo Ministério da Cultura, que cede seu espaço cultural em Vinhedo para a maturação das cenas remanescentes.
Após o batismo de fogo no festival santista, a Cia Jovem planeja apresentações experimentais de laboratório em sua sede e prevê a estreia oficial da versão integral de A Parte que nos toca para setembro, no Teatro Municipal de Vinhedo. Em Santos, a trilha sonora flertará com intervenções ao vivo e sonoplastia mecânica gravada, abraçando o rústico. A gratuidade dos ingressos no Teatro Guarany reforça a política de democratização que deu origem ao projeto. Trata-se, fundamentalmente, de um ensaio aberto sobre o direito de ocupar o espaço público com as próprias utopias.
Serviço
- Espetáculo: A Parte que nos toca (Cena curta em processo de criação)
- Grupo: Cia Jovem (Instituto Unindo Sonhos e Coletivo NEx.Arte)
- Data: 12 de junho, a partir das 19h
- Local: Teatro Guarany (Praça dos Andradas, s/nº – Centro, Santos – SP)
- Ingressos: Gratuitos (retirada na bilheteria com 1 hora de antecedência)
- Classificação: Livre
- Como apoiar: Informações sobre a Rifa Social através do Instagram @InstitutoUnindoSonhos ou pelo telefone (19) 99132-4907. O sorteio ocorre ao vivo no dia 12 de julho
Ficha Técnica
- Direção: Renan Mozzer
- Dramaturgia: Bruno Martins (Bruma)
- Cenário: Lara Crivellari
- Figurino: Taynara Anjos
- Assistente de Direção: Wellerson Barbosa
- Assistente Técnica: Sara de Queiroz
- Elenco: Helena Spolaor Torres, Penelope Suzana Goldberger Neves, Benjamin Gomes Oliveira, Rafaela Cassoli Bissolati, Maria Isabel Tommasiello Ruiz, Lorena Oliveira Fernandes, Pedro Miguel de Lima, Luna de Mello Macedo, João Henrique dos Santos, Ketlyn Vitória Aparecida Morais Cunha, Manuela Ormenezi Genezini Rowhedder, Guilherme Guerra.
- Realização: Instituto Unindo Sonhos e Coletivo NEx.Arte
Sobre o NEx.Arte
O Coletivo NEx.Arte é um grupo dedicado à pesquisa, criação e difusão das artes cênicas, atuando na produção de espetáculos, oficinas culturais e ações de formação artística. Com a missão de investigar a linguagem teatral, desenvolver novos talentos e fomentar as artes cênicas, o coletivo promove experiências culturais que unem arte, educação e transformação social.
Reconhecido pelo Ministério da Cultura como Ponto de Cultura, o NEx.Arte desenvolve trabalhos em diferentes frentes, incluindo montagens profissionais, projetos culturais e atividades formativas. Além disso, mantém o Espaço Cultural NEx.Arte em Vinhedo, um ambiente voltado para aulas de teatro, práticas criativas e desenvolvimento artístico de crianças, jovens e adultos.
Sobre o Instituto Unindo Sonhos
O Instituto Unindo Sonhos é uma organização cultural e social de Vinhedo que desenvolve projetos artísticos, educativos e comunitários voltados principalmente para crianças, adolescentes e jovens. Atuando por meio de oficinas, ações culturais, incentivo à leitura e atividades gratuitas, o Instituto acredita na arte, na cultura e na educação como ferramentas de transformação social e fortalecimento da comunidade.
Crédito das fotos: Erik Costa